Hoje publico a segunda parte da matéria que fiz sobre os MSF. No final, mais uma vez, a dica da semana.
Nomadismo sem frescurasQual seria a sensação de viver durante nove meses em um campo de refugiados, no meio do nada, em um país em colapso após uma guerra civil, onde a população não tem nem água, nem esgoto muito menos energia elétrica? Um lugar no qual latrina pra dez pessoas é luxo, as diversões são restritas e a vida espartana? Pois Carla deixou para trás um rentável consultório psiquiátrico e toda uma vida confortável em São Paulo para se instalar no norte de Uganda onde participou de uma de suas duas missões pela ONG Médico sem fronteiras.
Carla Kamitsuji é formada em psiquiatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Sempre teve atração pelo trabalho humanitário, tinha o sonho de ir para a Amazônia com o exercito para dar apoio à população ribeirinha, entretanto não podia deixar de fazer a residência. Foi então que o inusitado levou Carla a mudar de planos: “No final do sexto ano eu sofri um acidente de carro na cidade universitária, estava indo para um plantão no HU de manhã. Dormi ao volante e bati atrás de um ônibus. Este acidente me fez repensar minha vida, meus valores e minhas prioridades. Decidi ir pra Manaus independente do resultado da prova de residência”.
Depois de aceita no processo de seleção das forças armadas passou um terço de 2003 em um barco-hospital prestando serviços médicos onde teve contato com uma outra realidade do Brasil, fora do eixo Sul-Sudeste, “Um mundo onde os recursos médicos eram limitados e a vida precária, mas no qual vi que era possível fazer um bom atendimento sem toda infra-estrutura dos grandes centros”.
Voltando pra São Paulo fez a residência em psiquiatria e abriu um consultório, mas não conseguiu se adaptar. “Minha casa virou um hotel, só ia lá para dormir e comer. Trabalhava demais, me tornei uma escrava do dinheiro, mas sem ter tempo nem pra gastá-lo” diz. Isso durou de setembro de 2006 a janeiro de 2207, pois em novembro de 2006, após uma série de coincidências, enviou seu CV para Ana Cecília que precisava de psiquiatras para integrar a sessão suíça da MSF. “27 de dezembro fui fazer a entrevista, e no dia 28 já estava integrada. Dia 11 de janeiro já partia pra Uganda”. Para a família foi uma surpresa: “Foi aquela coisa, a Carla, que fez USP, tava trabalhando e ganhando dinheiro, seguindo o script, de repente muda tudo e resolve ir pra um lugar pior que o Brasil, aquela coisa, ao invés de ir pra Europa ou EUA...”

No campo de deslocados internos Atiak, no norte de Uganda, a 30 km da fronteira com o Sudão, Carla supervisionava o staff nacional. Ela explica que na verdade os médicos estrangeiros, tirando situações de catástrofes naturais, só estão na missão para capacitar os demais médicos locais. No caso dela trabalhava direto com as
councellors (conselheiras formadas em serviços social ou psicologia) locais, no componente de saúde mental e na assistência que eles dariam às pessoas. “Na verdade os estrangeiros não são o que põem a mão na massa, ao contrário do que aparece nas fotos. Quem faz isso é o staff nacional. Primeiro porque o médico estrangeiro não fala a língua local, e, além disso, os estrangeiros não ficam muito tempo, a idéia é apenas dar ferramentas para que os locais caminhem com as próprias pernas” explica. Por mais incrível que pareça ela conta que apesar da guerra e dos traumas, os problemas psicológicos mais comum que verificou nas missões foram os relacionados a depressão e ansiedade, as mesmas doenças que acometem pessoas no mundo todo e comenta de sua relação com alguns pacientes: “Antes de ir pra Uganda, eu fiquei frustrada, pois como psiquiatra não teria me comunicar. Mas o não verbal não pode ser negligenciado. Um dia no consultório vi que o menino atendido tinha algo, ai pedi pro staff perguntar na língua deles e ele respondeu que estava triste, não tinha mais vontade. No final quando ele viu que o problema dele tinha ajuda ficou melhor, a gente se entendeu sem a comunicação verbal.”
A vida em Uganda era precária, banho de balde e latrina faziam parte da rotina. Eletricidade só a partir de maio quando instalaram painéis de energia solar e a comida vinha em suprimentos semanais. Apesar das dificuldades toda missão conta com habitação para os médicos, de preferência quartos individuais, cozinheira, faxineira e motoristas locais, que se ocupam das tarefas do dia-a-dia. Entretanto para Carla nada disso era problema: “Em Uganda me adaptei super bem, mesmo com os ratos e baratas na cozinha. Consegui conviver, o que me impressionou. Nossa latrina era muito boa, pouca gente usava, dez pessoas, enquanto no campo de refugiados era uma pra mil pessoas. Para me divertir nos fins de semana, alem dos livros contava com os DVDs piratas que comprava na cidade mais próxima. Eram seis filmes em um DVD”.
Após Uganda, e três meses de merecidas férias no Brasil, Carla foi enviada ao Iraque, na região norte do Curdistão, mais precisamente para trabalhar nas cidades de Erbil e Dohuk, na qual tinha um trabalho mais tranqüilo que aquele feito em Uganda. “O projeto do Iraque era com as populações das
hot-zones, isso é, as áreas de conflito a idéia era que os doentes fossem encaminhados de outras regiões até a base da MSF no Curdistão. Como os médicos da região são mais capacitados, tem formação universitária, muitos inclusive no exterior, eu ficava com um trabalho mais burocrático, fazia relatórios por exemplo.”

Mas diferente das imagens do Iraque transmitidas pela televisão, a vida no Curdistão era mais tranqüila, visto que o centro de apoio ficava na capital da região norte, tinha energia elétrica, chuveiro, internet e até privada. “No Iraque que tinha todo conforto normal, pra mim era super luxo, mudou completamente. Além disso, todo período que estive lá não teve nenhuma explosão ou atentado. Mas a gente tinha regras de segurança, não podia andar sozinha, caminhando. Dava pra sair pra jantar a noite, mas só se fosse acompanhada do motorista e mais alguém” explica.
Quanto às relações com os colegas estrangeiros Carla diz que não difere muito da convivência em família: “É tipo um Big Brother, tem uns com quem temos mais afinidade e outros que nem tanto. Às vezes acontecem brigas, pelo stress de não falar a língua mãe, de viver em situação de dificuldade”. Namoros e mesmo casamentos entre membros estrangeiros da MSF são comuns, mesmo porque a faixa média é 30 anos, época em que muito tempo sem sexo transforma se em mais stress. O problema é quando envolve estrangeiros e membros do staff nacional o que é proibido pela organização, pois segundo Carla: “Dependendo da cultura é o branco pegando a negra. Tem toda a tradição histórico-cultural, a sociedade fala: ‘o branco pegou você e foi só foi pelo dinheiro’ e a pessoa em questão é excluída”.
Carla comenta que muito dos médicos acabam tentando virar um local; “Eles pensam ‘Quero fazer o trabalho humanitário e ser igual a eles!’ Isso é uma utopia. Você não fala a língua deles, não é um deles. Isso é diferente de tentar entender a cultura e respeitar. Se tornar um deles é impossível, a história de vida é outra. Mesmo os que vão de um pais subdesenvolvido como Brasil, por exemplo, são de uma elite sócio-econômica que não representa uma maioria da população brasileira”. Outro problema para Carla são os médicos que não cuidam de si mesmos: “O trabalho humanitário tem uma incidência de HIV maior do que na população em geral, pois é uma profissão de risco. Com o aumento do stress, aumenta o comportamento de risco como drogas e sexo desprotegido. Muitos vêm com a idéia de Super homem e não agüentam, pois não admitem nem que estão cansados. Precisam descansar para fazer o trabalho direito”.
“Quem trabalha na MSF não é pelo dinheiro. A ultima coisa que se conversa é dinheiro”diz. Depois de mais umas missões pretende fazer um mestrado em saúde publica, e atuar no interior do Brasil onde não há profissionais da saúde mental em todos os lugares. “Me atrai uma vida nômade” completa. FIM
Dica da semana:Estreiou no circuito augusta-paulista-bourbon na semena passada o filme "Há tanto tempo que te amo". Muito bem recebido pela crítica e pelo público na Europa e mesmo nos EUA, o filme tem como atriz principal Kristin Scott Thomas, aquela de "Lua de fel" e "Quatro casamentos e um funeral". Na França desde de os 19 anos, ela interpreta , num frânces irrepreensível, Juliette Fontaine, que após 15 anos na cadeia vai morar com a família da irmã e tenta se readaptar ao mesmo tempo em que o espectador anseia por descobrir o motivo de sua prisão.
Há tanto tempo que te amo, I
l y a longtemps que je t'aime, França, 115 min
Direção Phillipe Claudel, com Kristin Scott Thomas, Elsa Zylberstein, Serge Hazanavicius e Laurent Grévill
Salas em cartaz (Guia da Folha)