quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Entre o Fake e o Cool


Quando vou comer fora de casa em São Paulo, vez ou outra acabo testando um restaurante francês. Exceções a parte, ao invés de um retorno à Paris, me vejo sentado numa cópia exata do mesmo restaurante francês que fui no mês passado: preço salgado, gente nova rica e afetada (ou pior, hype), comida medíocre(sempre as mesmas variações do tema confit de canard e stake au poivre) e, le pire, decoração "estilo bistrô paulistano", mesa baixa, com toalha branca, velas e quadrinhos de Paris...

A primeira coisa que os restaurateurs de São Paulo deveriam saber é que bistrot, na França, é um lugar onde você é atendido pelo dono e pelos filhos do dono "a paisana", não por garçons vestidos de terno, comer pratos inéditos com o que tem de fresco no dia a um preço entre o barato e o razoável e, o principal, a decoração, de preferência diferente de uma casa pra outra, não inclui necessariamente toalha de mesa passadérrimas nem quadrinhos com o Champs-Élysées estilizado.

Isso tudo pra falar que aqui em São Paulo temos essa péssima tradição de pegar uma coisa original, como os bistrôs, e transformá-los em algo caro e sem originalidade. É a mentalidade shopping center. Posso dar outros exemplos: os bares estilo carioca da Vila Madalena, todos exatamente iguais, as novas casas de kebab (donner kebab na europa é comida de terceira pra matar a larica pós balada, não comida chique pra comer com garfo e faca e soda italiana), as hamburguerias NY wanna be e as feirinhas hypes de rua. É a mentalidade "rede", de rede de restaurantes mesmo, que ultrapassa o próprio conceito de rede e se transfere praquilo que não queria ser rede. Difícil? Para exemplificar, Árabia e Almanara, concorrentes, têm a mesma exata comida.

Tudo fica pasteurizado, as idéias se repetem e acabam saturando. Ao boom de bares cariocas seguiu o boom de baladas indie rock na baixa Augusta, seguido pelo boom de kebaberias, boom de temakerias e agora descobri o boom de "Entrecôtes", sim depois do novo restaurante do Olivier, que tem menos de seis meses, já apareceu outro com a mesma idéia de prato único contra-filé, batatas, molho especial...

Ainda tem todas as churrascarias idênticas com garçons gaúchos e hostess de chita, todas as cantinas idênticas com pratos pesados e todas as mesmas baladas de rico da Vila Olímpia com a mesma Veuve Clicquot a 500 reais. Aquilo que era Cool e “original” em menos de seis meses vira Fake. Uma cidade que tinha tudo pra criar novas idéias exatamente pela sua mistura cultural, seu melting pot, acaba criando um monte de idéias em "redes" que se adaptam a mentalidade pequena do cliente com o medo de darem prejuízo ao dono. Se uma coisa da certo o negócio é copiar, não importa que aquilo seja totalmente diferente da idéia original. E assim caímos dentro de nossos próprios clichês.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A morte de um elo e uma nova visão de lugar

Com 100 anos morreu ClaudeLévi-Strauss, um dos maiores elos entre o Brasil e a França. Tendo morado quatro anos no Brasil entre 1935 e 1939, foi um dos primeiros professores da recém fundada universidade de São Paulo. Referência para os acadêmicos brasileiros, Lévi-Strauss foi um dos primeiros acadêmicos importantes a mostrar nosso país, até então uma incognita, para o resto do mundo, ao escrever Tristes trópicos que mistura lembranças de sua viagem pelo Brasil, seus encontros com os índios em Goiás, Mato Grosso e Paraná e também meditações sobre a civilização. Bom, caro leitor, a idéia não é discorrer sobre a obra do antropólogo, mesmo porque sou jornalista e como todos sabem jornalista é o doutor do nada. Interessante notar como a imagem do Brasil mudou de 1939 até 2009 e como para muitos a Pasárgada sempre está em outro lugar.

Quando Lévi-Strauss esteve por aqui São Paulo era uma imitação barata da Europa, o que incluía os intelectuais metidos a vanguardistas e os prédios neoclássicos - construídos até hoje só que com 4 suítes e 5 vagas na garagem. Fora São Paulo e o Rio de Janeiro, o resto do país era um amontoado de cidades precárias - imagine já é precário hoje o que dirá em 1930- com uma gigantesca massa de miseráveis. Em algumas regiões, que não precisamos nomear, o Faroeste ainda era regra, o nosso presidente era Getúlio Vargas e a Argentina era a décima economia do mundo, bem a frente do Brasil, que no entanto ja era chamado de "o país do futuro!" (Stephan Zweig- Brasil, país do futuro, 1941) e mesmo assim ele ainda dizia sentir saudades do Brasil.

Agora, exatos 70 anos depois, somos vistos como o país do presente, da consciência ambiental, a superpotência da America Latina, a próxima China, ou seria EUA e etc, etc, etc. Me lembro bem de quantas vezes alguns franceses comuns me perguntaram o que eu estava fazendo em Paris se o Brasil era muito melhor, onde o emprego crescia feito grama, a vida era menos estressante e mais barata, o povo simpático e o futuro ainda estava por vir, enquanto a França, nas palavras deles, era um país atrasado, velho, sem oportunidade para os jovens e caro, muito caro. Isso tudo apesar das imagens de Cidade de Deus e dos ônibus pegando fogo nas favelas, os cadáveres nos carrinhos de supermercado e todas aquelas imagens lindas da violência brasileira que proliferam na mídia mundial. Eu ficava indignado e fazia questão de mostrar que a França ainda era referência e que o Brasil tinha vários problemas.

Refletindo sobre essas questões um ano depois de ter voltado, passado o choque de realidade, a readaptação e todos os demais problemas da volta que ja comentei neste mesmo espaço, cheguei ao lugar comum que no fundo não tem um lugar bom nem um lugar ruim - talvez vá-la o Zimbábue e o Afeganistão sejam ruins. Todavia mais do que lugares bons e ruins existe a adaptação ao espaço ao redor. Esses franceses comuns não estão errados: se quiser terá mil e um motivos para achar o Brasil uma merda, é só entrar na internet em alguma página de política, sair de casa e pegar a marginal Tietê, ou ir passar o fim de semana em Paraisópolis. Por outro lado se for passear no Ibirapuera, no Jardim Botânico no Rio, ir para a praia, assistir a um concerto na OSESP ou uma vibrante batucada de escola de Samba, ser bem recebido por estranhos, comer bem, muito bem, por um preço irrisório e ter possibilidades de ter um bom emprego, coisa difícil em muitos países "desenvolvidos", o Brasil vai parecer o paraíso.

Como já disse, Lévi-Strauss dizia sentir muitas saudades, principalmente de São Paulo. O paulistano que desaparece pro litoral ou interior nos feriados se perguntaria o porquê. O francês expatriado que vem morar aqui e delira com os prédios da Marginal Pinheiros, as construções monumentais, as churrascarias rodízios, a cordialidade e com o exótico de nossa cultura sabe a resposta. Admito que às vezes sei, às vezes não...

P.S. Escrevo isso no momento em que recebi um email da minha amiga francesa Catherine no qual ela me enviou os PDFs da edição de 29.10.09 do Courrier International, importante revista semanal francesa, cujo o tema do dossiê principal é exatamente o aumento da importância do Brasil: Brésil: Portrait d'un pays qui gagne

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Abandono do Blogue? Não, apenas um "volto logo!"

Queridos leitores,

Pois é. Eu deixarei de postar no Blog por um tempo. Achei q esse ano ja tava muita overdose de França e preciso rever alguns pontos do meu próprio eu escritor.
Todavia, contudo, entretanto prometo retomá-lo no meu 24o ano de vida! Peço paciência aos meus 2 leitores assiduos que logo mais estarei de volta, com muitas novidades e, quem sabe, um pouco mais inspirado!
Pra quem quiser me seguir estou no twitter @guibittar onde, além de meus comentários fugazes, também encontrarão dicas eventuais da cultura francesa!

Voilà! A Bientôt!

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Matéria Babel - Médicos sem fronteiras(Parte II)

Hoje publico a segunda parte da matéria que fiz sobre os MSF. No final, mais uma vez, a dica da semana.

Nomadismo sem frescuras

Qual seria a sensação de viver durante nove meses em um campo de refugiados, no meio do nada, em um país em colapso após uma guerra civil, onde a população não tem nem água, nem esgoto muito menos energia elétrica? Um lugar no qual latrina pra dez pessoas é luxo, as diversões são restritas e a vida espartana? Pois Carla deixou para trás um rentável consultório psiquiátrico e toda uma vida confortável em São Paulo para se instalar no norte de Uganda onde participou de uma de suas duas missões pela ONG Médico sem fronteiras.

Carla Kamitsuji é formada em psiquiatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Sempre teve atração pelo trabalho humanitário, tinha o sonho de ir para a Amazônia com o exercito para dar apoio à população ribeirinha, entretanto não podia deixar de fazer a residência. Foi então que o inusitado levou Carla a mudar de planos: “No final do sexto ano eu sofri um acidente de carro na cidade universitária, estava indo para um plantão no HU de manhã. Dormi ao volante e bati atrás de um ônibus. Este acidente me fez repensar minha vida, meus valores e minhas prioridades. Decidi ir pra Manaus independente do resultado da prova de residência”.

Depois de aceita no processo de seleção das forças armadas passou um terço de 2003 em um barco-hospital prestando serviços médicos onde teve contato com uma outra realidade do Brasil, fora do eixo Sul-Sudeste, “Um mundo onde os recursos médicos eram limitados e a vida precária, mas no qual vi que era possível fazer um bom atendimento sem toda infra-estrutura dos grandes centros”.

Voltando pra São Paulo fez a residência em psiquiatria e abriu um consultório, mas não conseguiu se adaptar. “Minha casa virou um hotel, só ia lá para dormir e comer. Trabalhava demais, me tornei uma escrava do dinheiro, mas sem ter tempo nem pra gastá-lo” diz. Isso durou de setembro de 2006 a janeiro de 2207, pois em novembro de 2006, após uma série de coincidências, enviou seu CV para Ana Cecília que precisava de psiquiatras para integrar a sessão suíça da MSF. “27 de dezembro fui fazer a entrevista, e no dia 28 já estava integrada. Dia 11 de janeiro já partia pra Uganda”. Para a família foi uma surpresa: “Foi aquela coisa, a Carla, que fez USP, tava trabalhando e ganhando dinheiro, seguindo o script, de repente muda tudo e resolve ir pra um lugar pior que o Brasil, aquela coisa, ao invés de ir pra Europa ou EUA...”




No campo de deslocados internos Atiak, no norte de Uganda, a 30 km da fronteira com o Sudão, Carla supervisionava o staff nacional. Ela explica que na verdade os médicos estrangeiros, tirando situações de catástrofes naturais, só estão na missão para capacitar os demais médicos locais. No caso dela trabalhava direto com as councellors (conselheiras formadas em serviços social ou psicologia) locais, no componente de saúde mental e na assistência que eles dariam às pessoas. “Na verdade os estrangeiros não são o que põem a mão na massa, ao contrário do que aparece nas fotos. Quem faz isso é o staff nacional. Primeiro porque o médico estrangeiro não fala a língua local, e, além disso, os estrangeiros não ficam muito tempo, a idéia é apenas dar ferramentas para que os locais caminhem com as próprias pernas” explica. Por mais incrível que pareça ela conta que apesar da guerra e dos traumas, os problemas psicológicos mais comum que verificou nas missões foram os relacionados a depressão e ansiedade, as mesmas doenças que acometem pessoas no mundo todo e comenta de sua relação com alguns pacientes: “Antes de ir pra Uganda, eu fiquei frustrada, pois como psiquiatra não teria me comunicar. Mas o não verbal não pode ser negligenciado. Um dia no consultório vi que o menino atendido tinha algo, ai pedi pro staff perguntar na língua deles e ele respondeu que estava triste, não tinha mais vontade. No final quando ele viu que o problema dele tinha ajuda ficou melhor, a gente se entendeu sem a comunicação verbal.”

A vida em Uganda era precária, banho de balde e latrina faziam parte da rotina. Eletricidade só a partir de maio quando instalaram painéis de energia solar e a comida vinha em suprimentos semanais. Apesar das dificuldades toda missão conta com habitação para os médicos, de preferência quartos individuais, cozinheira, faxineira e motoristas locais, que se ocupam das tarefas do dia-a-dia. Entretanto para Carla nada disso era problema: “Em Uganda me adaptei super bem, mesmo com os ratos e baratas na cozinha. Consegui conviver, o que me impressionou. Nossa latrina era muito boa, pouca gente usava, dez pessoas, enquanto no campo de refugiados era uma pra mil pessoas. Para me divertir nos fins de semana, alem dos livros contava com os DVDs piratas que comprava na cidade mais próxima. Eram seis filmes em um DVD”.

Após Uganda, e três meses de merecidas férias no Brasil, Carla foi enviada ao Iraque, na região norte do Curdistão, mais precisamente para trabalhar nas cidades de Erbil e Dohuk, na qual tinha um trabalho mais tranqüilo que aquele feito em Uganda. “O projeto do Iraque era com as populações das hot-zones, isso é, as áreas de conflito a idéia era que os doentes fossem encaminhados de outras regiões até a base da MSF no Curdistão. Como os médicos da região são mais capacitados, tem formação universitária, muitos inclusive no exterior, eu ficava com um trabalho mais burocrático, fazia relatórios por exemplo.”



Mas diferente das imagens do Iraque transmitidas pela televisão, a vida no Curdistão era mais tranqüila, visto que o centro de apoio ficava na capital da região norte, tinha energia elétrica, chuveiro, internet e até privada. “No Iraque que tinha todo conforto normal, pra mim era super luxo, mudou completamente. Além disso, todo período que estive lá não teve nenhuma explosão ou atentado. Mas a gente tinha regras de segurança, não podia andar sozinha, caminhando. Dava pra sair pra jantar a noite, mas só se fosse acompanhada do motorista e mais alguém” explica.

Quanto às relações com os colegas estrangeiros Carla diz que não difere muito da convivência em família: “É tipo um Big Brother, tem uns com quem temos mais afinidade e outros que nem tanto. Às vezes acontecem brigas, pelo stress de não falar a língua mãe, de viver em situação de dificuldade”. Namoros e mesmo casamentos entre membros estrangeiros da MSF são comuns, mesmo porque a faixa média é 30 anos, época em que muito tempo sem sexo transforma se em mais stress. O problema é quando envolve estrangeiros e membros do staff nacional o que é proibido pela organização, pois segundo Carla: “Dependendo da cultura é o branco pegando a negra. Tem toda a tradição histórico-cultural, a sociedade fala: ‘o branco pegou você e foi só foi pelo dinheiro’ e a pessoa em questão é excluída”.

Carla comenta que muito dos médicos acabam tentando virar um local; “Eles pensam ‘Quero fazer o trabalho humanitário e ser igual a eles!’ Isso é uma utopia. Você não fala a língua deles, não é um deles. Isso é diferente de tentar entender a cultura e respeitar. Se tornar um deles é impossível, a história de vida é outra. Mesmo os que vão de um pais subdesenvolvido como Brasil, por exemplo, são de uma elite sócio-econômica que não representa uma maioria da população brasileira”. Outro problema para Carla são os médicos que não cuidam de si mesmos: “O trabalho humanitário tem uma incidência de HIV maior do que na população em geral, pois é uma profissão de risco. Com o aumento do stress, aumenta o comportamento de risco como drogas e sexo desprotegido. Muitos vêm com a idéia de Super homem e não agüentam, pois não admitem nem que estão cansados. Precisam descansar para fazer o trabalho direito”.

“Quem trabalha na MSF não é pelo dinheiro. A ultima coisa que se conversa é dinheiro”diz. Depois de mais umas missões pretende fazer um mestrado em saúde publica, e atuar no interior do Brasil onde não há profissionais da saúde mental em todos os lugares. “Me atrai uma vida nômade” completa. FIM

Dica da semana:

Estreiou no circuito augusta-paulista-bourbon na semena passada o filme "Há tanto tempo que te amo". Muito bem recebido pela crítica e pelo público na Europa e mesmo nos EUA, o filme tem como atriz principal Kristin Scott Thomas, aquela de "Lua de fel" e "Quatro casamentos e um funeral". Na França desde de os 19 anos, ela interpreta , num frânces irrepreensível, Juliette Fontaine, que após 15 anos na cadeia vai morar com a família da irmã e tenta se readaptar ao mesmo tempo em que o espectador anseia por descobrir o motivo de sua prisão.

Há tanto tempo que te amo, Il y a longtemps que je t'aime, França, 115 min
Direção Phillipe Claudel, com Kristin Scott Thomas, Elsa Zylberstein, Serge Hazanavicius e Laurent Grévill

Salas em cartaz (Guia da Folha)

terça-feira, 16 de junho de 2009

Matéria Babel - Médicos sem fronteiras(Parte I)

Vou publicar em dois posts neste blog a matéria sobre a MSF que fiz para a Revista Babel dos alunos de jornalismo da ECA- USP que infelizmente não saiu.
Como trata-se de uma organização francesa o tema é pertinente. Segue a dica da semana.

Na fronteira da vida
por Guilherme Bittar

Notícias como essa, com as mesmas nuances de melodrama, sempre aparecem nos telejornais: Em um remoto país africano um grupo étnico toma o poder e começa a matar compulsoriamente membros do grupo “adversário”. A barbárie começa a ser denunciada pela mídia e, em pouco tempo, várias pessoas de diversas partes do mundo começam a afluir para o a local. O que leva essas pessoas a estar no lugar em que ninguém gostaria de estar?




Eles não são de todo desconhecidos. Seja uma catástrofe natural na Ásia, ou mais um conflito étnico sanguinário na África, lá estão eles. Vestidos de branco com o logotipo em vermelho, seus membros estão sempre a postos no intuito de salvar vidas, curar e ajudar, mas sem deixar de lado a denuncia e o testemunho dos possíveis desrespeitos aos direitos humanos. E é exatamente esse o diferencial dos Médicos sem fronteiras (MSF), uma das organizações médico-humanitárias mais conhecidas e respeitadas.

A ONG Médico sem fronteiras, ou Médecins sans frontières, como é internacionalmente conhecida, foi criada em 20 de dezembro de 1971 por um grupo de médicos e jornalistas franceses. Eles estiveram com a Cruz Vermelha em 1970 no Biafra, durante a tentativa de independência desta região da Nigéria, mas não concordaram com a política de neutralidade exercida pela organização. Os treze fundadores, entre eles o midiático Bernard Kouchner, ex-Partido Socialista e atualmente ministros das Relações Exteriores do governo Sarkozy, criam durante a missão o Grupo de intervenção médica e cirúrgica de urgência (GIMCU) que no ano seguinte muda de nome para Médicos sem fronteiras.

Passam-se os anos, muda-se a direção. Bernard Kouchner sai e funda o similar Médicos do Mundo, após a operação Un bateau pour le Vietnam (Um barco para o Vietnã), na qual acontecem divergências sobre a midiatizaçao demasiada do grupo. Nos anos que se seguem a MSF participa de várias ações, trabalhando em conflitos como os do Sudão, Ruanda, Libéria e Iugoslávia e catástrofes como a fome em Serra Leoa ou mesmo o terremoto na Nicarágua, além de criar projetos contra doenças infecto-contagiosas como a AIDS.

A MSF começou em Paris, mas logo na década de 80 já encontra-se espalhada por vários países da Europa através de seus escritórios. Além da França; Espanha, Holanda, Bélgica e Suíça, onde hoje fica o escritório internacional da organização, mais precisamente em Genebra, contam também com centros operacionais do grupo. A Médicos sem fronteiras chega ao auge de seu reconhecimento ao ganhar em 1999 o prêmio Nobel da paz, no mesmo ano que o Dalai Lama. Hoje são cerca de 70 países que contam com representações da organização e 2500 médicos que partem anualmente em missões.

Segundo a psicóloga e RH Ana Cecília Moraes, recrutadora da MSF no Brasil, a organização trabalha em países com a proposta de levar assistência e saúde para as situações onde não há, ou é muito difícil, o acesso a saúde, em decorrência de situação de conflito, catástrofe, fome ou epidemia. Em outros países como é o caso do Brasil, onde há condições, o atendimento é relacionado à violência urbana que impede a chegada de profissionais, materiais, e até mesmo ambulâncias como é o caso do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro, onde há um projeto da MSF.

Ana Cecília trabalhou um tempo na Bélgica, um dos escritórios centrais, e visitou dois projetos, no Burundi e Peru. Trabalhou também por 40 dias como coordenadora administrativa no Quênia depois da evacuação da antiga coordenadora em decorrência do recrudescimento do conflito, esta tinha um filho pequeno. “O trabalho foi intenso, com problemas relacionados aos profissionais, dificuldade de acesso, estradas bloqueadas e violências étnicas” diz.

Ela explica que a MSF funciona através de uma série de escritórios divididos em duas grandes estruturas diferentes: umas são os projetos, no qual tem o hospital, ou um posto de saúde, uma campanha de vacinação, ou seja, o atendimento direto às pessoas. A outra estrutura que é a estrutura deliberativa, mais organizacional, leia-se burocrática, são os escritórios que estão espalhados hoje em 19 países, mesmo que a decisão de abrir um projeto ainda caiba apenas aos cinco maiores escritórios da organização mencionados anteriormente, que estão diretamente responsáveis pelos menores. Dentro desses escritórios há dois grupos de equipes: As de suporte como o departamento médico onde tem o médico (cirurgião, anestesista...), o enfermeiro e o psicólogo, que cuidam da criação vertical do componente de um projeto e outra administrativa que decide ou não pela implementação do projeto. Para tomar essa decisão, cria-se um grupo composto de cinco pessoas, sendo um médico, um RH, um diretor financeiro, um diretor de logística, e um chefe coordenador, que junto com a equipe do projeto vai decidir como vai ser a continuidade do projeto, acompanhando de perto a partir da Europa.

Depois disso há ainda vários fatores a serem levados em consideração como se o país ou estado, ou mesmo local, tem condições ou não de responder a essa situação, se não tem porque não tem e se é ou não papel da MSF intervir. “No furacão Katrina, por exemplo, no nosso entendimento não foi uma situação na qual a MSF deveria intervir, pois os EUA é um país que, teoricamente tem todos os recursos, têm profissionais e tem dinheiro. No caso poderia ter feito melhor, mas tinha condições de fazer alguma coisa” diz Ana Cecília que não esquece de frisar, sempre, a independência da organização. “É a gente quem vai decidir pela intervenção a partir dos nossos critérios somente. Não porque certo governo pediu ou temos algum tipo de financiamento, nada disso” diz.

Entretanto apesar de toda essa vontade de independência, a ONG precisa da autorização dos países para poder intervir, sobretudo em situações de conflito, mesmo que se pregue a neutralidade, imparcialidade e independência. ”Se queremos intervir num país, mas ele dificulta muito, ou mesmo não permite a entrada, o que vamos fazer é provavelmente divulgar, prestar o testemunho, e falar que o país não esta permitindo a entrada de ajuda humanitária”. Para ela o maior problema é o desconhecimento da organização e o fato de todas as entidades de ajuda médico-humanitárias usarem cores vermelha e branca nos seus logos e uniformes, o que gera certa confusão. “O resgate da Ingrid, é um exemplo, pois foi realizado a partir de uma falsa ação humanitária com um pessoal vestido de cruz vermelha. Isso impacta no nosso trabalho” comenta.

Quase 80% do orçamento que a MSF consegue é através de doações de pessoas físicas, os outros 20% são frutos de doações de alguns governos ou fundos intergovernamentais como a União Européia. Entretanto, não são aceitas doações de qualquer governo ou qualquer instituição privada. “Não podemos aceitar dinheiro de países ou empresas que estão claramente implicados em uma situação de conflito, como é o caso dos EUA e da China, ou empresas com intenções contrarias a nossa como a indústria Farmacêutica. Tudo que temos da indústria farmacêutica é comprado, não aceitamos doação, temos sim parcerias com algumas poucas indústrias, com alguns governos e instituições de saúde publica onde buscamos soluções para tratamentos que não tem cura ou cujo tratamento é antigo e ineficaz” frisa Ana Cecília.

O fato de viver de doações, e de ser uma ONG, explica, em parte, o “baixo” salário do profissional que se engaja em missões no exterior, em torno de 1000 euros, com bônus para sobrevivência, moradia, alimentação e seguro médico, além de poder levar a família, a partir da segunda missão e se o país for estável, obviamente. O membro da MSF tem que falar ou inglês ou francês, estar disposto a ficar um ano fora e ter extrema capacidade de adaptação e flexibilidade, além de uma dose alta de espírito de aventura, sobretudo se engajado para uma região de conflito. Ana Cecília explica: “A gente nunca pode ter certeza se haverá riscos, levamos em conta uma serie de fatores para mandar uma missão. No Afeganistão, por exemplo, estamos tentando voltar a trabalhar lá, mas o risco é muito grande”. Não há, todavia, total segurança de que mortes não aconteçam. No caso mais recente três membros estrangeiros da MSF faleceram no sul da Somália em janeiro desse ano em decorrência de uma mina tele controlada. A MSF resolveu então tirar todo o staff nacional da Somália, onde trabalhavam 80 estrangeiros, além dos 1000 somalis, e não voltou até hoje. Essa situação mostrou a dificuldade de se trabalhar em regiões de conflitos intensos.

Apesar de todas as privações e dificuldades, muitos membros, cerca de 40%, fazem mais do que uma missão pela MSF. Normalmente é um pessoal mais jovem que se dispõe a viajar, mas a MSF, com sua complexa estrutura, ainda pode oferecer uma carreira para muitos dos que entram e há oportunidades de subir hierarquicamente na organização. Entretanto, não é isso que procuram os médicos e demais profissionais que se engajam na organização. Quem escolhe tal meio de vida acredita que a ajuda humanitária é a melhor forma de ajudar onde os governos já não são mais capazes de intervir. Ou seria uma forma de redimir as culpas coletivas de décadas de colonialismo e esquecimento?

Continua na próxima semana...


Dica da semana:

Essa semana a dica é de uma exposição multimídia que começou dia 4 no SESC Paulista sobre a vida e a obra do meu ídolo Serge Gainsbourg. Integrante do Ano da França, se estrututa em 24 pliastras multimidias com sons, imagens e vídeos. Mais informações:
- Matéria de minha autoria sobre a exposição no site do SESC
- Link para o serviço da exposição

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Ano da França no Brasil. Finalmente.

Depois de muito "enrolê" venho falar aos poucos leitores que me restam sobre o acontecimento maior da francofilia, quiçá da cultura, neste fatídico ano de 2009. O ano da França no Brasil.

Um pouco de história: A França todo ano homenageia um país trazendo um pouco mais da cultura deste local para o cotidiano dos franceses. Ja teve ano da Armenia, da China e de diversos outros países. Porém nenhum outro marcou tanto os espíritos dos franceses quanto o Ano do Brasil que teve como tema Brésil Brésils, literalmente "Brasil Brasis" retomando o conceito de que o Brasil comporta vários"Brasis". A integração cultural entre os dois países foi perfeita, mesmo que muitas vezes a programação tenha sido pautada por alguns lugares comuns como batuque, candomblé e folclore. As manifestações artístico-culturais naquele longínquo e mítico ano de 2005 conseguiram trazer aos franceses um retrato menos caricato e estereotipado e bem mais complexo, e até mesmo completo, daquilo que eles acreditavam ser uma grande "Salvador-Rio-Amazônia".

Foi aí que, como forma de agradecimento, Monsieur Lula e Monsieur Gil prometeram retribuir com um ano da França no Brasil. Finalmente, este ano chegou no dia 21 de abril, feriado de Tiradentes, data escolhida pelo simbolismo republicano. A abertura oficial foi feita no Rio de Janeiro com um show pirotécnico promovido pelo Groupe F na Lagoa Rodrigo de Freitas. Nada mais carioca, nada mais francês.

O ano segue até o dia 15 de novembro (coincidência ou mais uma data republicana?) e conta com diversas atrações entre shows, exposições e instalações realizadas pelos governos dos dois países em parcerias com Cultures France, Aliança Francesa, SESC SP e Ubi France. Está será sem dúvida uma oportunidade para os brasileiros conhecerem mais sobre a nova França, da qual tanto falo aqui no blog, que já não é mais apenas o país do vinho, do Camembert e das mulheres com pelo no sovaco. Estarei aqui para dar as melhores dicas das melhores atrações deste ano. Pra começar, a Virada Cultural conta com programação especial. Aconselho ver a Cie Carabosse e o Tango Sumo.

Mais informações e programação completa do Ano da França no site oficial.

segunda-feira, 9 de março de 2009

O pré e o pós da língua

Tempo depois do último post, entre Carnavais, fins de ciclo e doenças oftalmológicas, o assunto a ser discutido é a reforma ortográfica. Não, não precisa sair deste blog e ir procurar outro de entretenimento barato. Não vou discutir se a reforma é boa, ruim ou nula. Não sou gramático, apenas um escritor e comunicador. Minha intenção é discutir a reforma e seu papel na língua, sempre, como é o intuito deste Blog, relacionando com a França.

Pois bem, a reforma ortográfica tá aí e com ela uma série de modificações para "facilitar" a língua. Entretanto uma língua precisa ser "facilitada"? Até que ponto devemos mexer num idioma para adaptá-lo à forma falada? O francês em toda sua existência como língua oficial da França (e lá se vão mais de um milênio desde o Juramento de Estrasburgo em 842 feito em Francês por Luís, o Germânico, para as tropas de seu irmã Carlos, o Calvo, em um protofrancês chamado de romana língua) sofreu poucas modificações sendo a última em 1990, o que serviu para regularizar sinais ortográficos e normalizar tempos verbais.

O português escrito se adapta cada vez mais às demandas da sociedade, o que levou ao desaparecimento de vários empecilhos, como a trema, que antes existiam para dar mais clareza à língua escrita, mas que ao mesmo tempo dificultavam o trabalho da massa ignorante dos principais países lusófonos e que reflete na quantidade de erros que pululam nas trocas de informações e na comunicação, levando a uma grande informalidade.

Ao mesmo tempo, o francês escrito mantém características do século XVIII, o que inclui por parte dos francófonos um grande apreço pela regra e norma, pela sobriedade e formalidade, sobretudo quando se trata das relações profissionais. Apesar da tradição e beleza que tal forma de comunicação traz à língua, tal forma de pensar cria uma série de preciosidades desnecessárias que, entre outros, dificulta a inserção de novos falantes e escritores, pois escrever em uma língua como o francês não é fácil nem para o mais policarpo dos gauleses.
Qual então seria a solução para as questões colocadas durante esta discussão? Facilitar para aumentar ou dificultar para manter?

Dicas da semana:

Essa semana, como o assunto é língua darei duas dicas de leitura. Lançado em 2006 na França, “A elegância do ouriço”, primeiro livro Muriel Barbery conta a história a partir do ponto de vista de duas habitantes do mesmo prédio no 7, rue de Grenelle, no tradicional reduto dos ricos parisienses o 6º distrito. Uma é a velha zeladora Renée, que aparententemente resmungona e ignorante, mostra que tudo não passa de um disfarce, pois na verdade é uma pessoa culta e voltada às artes, fã do diretor japonês Yasujiro Ozu. A outra é Paloma filha de um figurão da política e de uma perua instruída, uma garota de 12 anos que pretende se suicidar aos 13, pois não suporta a hipocrisia do mundo, sobretudo a de sua família. O destino delas será interligado quando aparece Kakuro Ozu, sobrinho do cineasta e novo habitante do prédio. O livro ganhou diversos prêmios entre eles o prestigiado Prix des libraires em 2007.

O outro livro é uma não ficção do autor Edmund White da série “O escritor e a cidade” da Cia. das Letras. “O Flanêur - Um passeio pelos paradoxos de Paris” é um livro que serve ao mesmo tempo de guia e de divertimento pra quem quer conhecer mais sobre Paris. O autor, que morou pela cidade por 16 anos, pratica sua flanêrie, isso é passeia sem compromisso por Paris, contando histórias e mostrando as faces escondidas da “Cidade Luz”.

A elegância do ouriço, L´elegance du herisson, Ed. Cia. das Letras, 2008, R$ 45,00, 352 páginas

O Flanêur – Um passeio pelos paradoxos de Paris, The flaneur: A stroll through the paradoxes of paris, Ed. Cia das Letras, 2001, R$ 45,00, 216 páginas